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História
das Ruas de São Paulo
texto
de
Luís Soares de Camargo
"Uma
das condições básicas para
o exercício da cidadania é ter um
endereço, regularizado, oficializado e
denominado"
Diário
Oficial do Município, 28/12/1991
Desde a antiguidade, o homem percebeu as muitas
vantagens que havia ao aplicar um determinado
nome aos locais por onde circulava, sejam aqueles
próximos de suas moradas, sejam os mais
longínquos. De fato, esta era uma questão
muito importante pois assim as pessoas poderiam
obter referências seguras de sua própria
localização ou orientação
num determinado território. Por conta disso
a humanidade, aos poucos, acabou por denominar
as montanhas, os vales, rios, florestas e, quando
a sociedade se organizou em grupos, surgiram o
nome de tribos, nações, reinos e
países. Seguindo esse mesmo processo, os
aglomerados urbanos – as cidades –
também receberam nomes específicos
e, no interior destas, os logradouros (ruas, praças,
pontes, travessas, etc.) também foram identificados
com denominações próprias
e diferenciadas.
Ao se depararem com um novo continente em 1492,
os europeus logo lhe atribuíram o nome
de América (homenagem ao navegador
Américo Vespúcio), diferenciando
portanto as novas terras da velha Europa
ou da África. Da mesma forma, o
nosso país ganhou o nome de Brasil
(um tipo de árvore e madeira comum naquela
época no litoral brasileiro) e nossa cidade
foi denominada como São Paulo pois
ela foi fundada no dia dedicado ao apóstolo
Paulo, 25 de janeiro, no ano de 1554. Todos os
nomes possuem uma explicação e,
no caso específico dos nomes de lugares,
a toponímia é a área
das ciências humanas que cuida de estudá-los
(do grego tópos, lugar + ônimo,
nome).
Surgida no entorno de uma capela construída
pelos padres Jesuítas (um misto de igreja
e escola de catequização para as
crianças indígenas) a cidade de
São Paulo viu surgir em frente do edifício
um pequeno largo. Este foi o primeiro logradouro
público da cidade de São Paulo que,
pela especialidade do edifício religioso,
recebeu o nome de
Pátio do Colégio.
Com o passar do tempo, outras ruas e travessas,
becos e largos foram abertos e denominados.
Nos
primeiros séculos de existência,
os logradouros paulistanos receberam denominações
populares (atribuídas pelo próprio
povo) tendo como motivos a predominância
de um templo religioso, um aspecto da geografia
local, utilizando o nome de um morador muito conhecido
ou fazendo referência a um tipo especial
de comércio existente nos arredores. E
assim foi por cerca de 250 anos, ou seja, quem
atribuía nomes às ruas era a própria
população, sem qualquer interferência
por parte da Câmara Municipal que se constituía
no governo local.
Em seu livro "Vida e Morte do Bandeirante"
(Empresa Gráfica Revista dos Tribunais,
S.P., 1930), Alcântara Machado soube bem
apresentar esse aspecto da história paulistana,
ou seja, sobre as primeiras denominações
dadas às ruas da cidade. Analisando antigos
Inventários e Testamentos, ele constatou
que "nos processos mais remotos não
se mencionava a situação exata dos
imóveis" (os endereços
das residências). E nem era preciso, porque
a cidade era muito pequena e tão poucos
eram seus moradores que todos se conheciam. Nos
seus primeiros anos, por exemplo, as casas construídas
em São Paulo não possuíam
números, pois todos sabiam onde elas se
localizavam.
Nesse ponto, a curiosidade nos leva a fazer a
seguinte pergunta: de que maneira então
as pessoas escreviam seus endereços? Alcântara
Machado recolheu alguns deles em documentos dos
séculos XVI e XVII. Assim, ficamos sabendo
que os antigos paulistanos residiam "...
pegado com Pedro Taques" "... junto
à casa da Fundição",
"... junto aos muros dos frades de São
Francisco", "... defronte do Colégio",
"... defronte do pelourinho",
ou "... defronte a Cadeia".
E isso bastava, pois os moradores localizavam-se
uns aos outros com essas poucas informações.
Posteriormente, apareceram alguns logradouros
com uma melhor identificação: "a
travessa que vai para as casas do defunto dom
Simão", "a rua defronte de João
Paes", "a rua em que mora Marcellino
Camargo", "a rua em que tem casas Francisco
Furtado". Apesar de localizarem-se
no chamado centro velho da cidade, primeira área
onde as ruas foram abertas, não conseguimos
identificar esses antigos logradouros na atual
geografia urbana de São Paulo.
Entretanto, ao pesquisarmos as Atas da Câmara
Municipal (o mais antigo conjunto documental da
cidade) nos deparamos com a primeira menção
a uma rua da antiga vila paulistana. Como
se trata de um documento histórico, optamos
por transcrevê-lo com o português
daquela época. Trata-se de uma ata de reunião
da Câmara de Vereadores, ocorrida no dia
06 de fevereiro de 1638:
"Aos
seis dias do mes de fevereiro de mil seis sentos
e trinta e oito anos nesta villa de são
paulo nas casas do conselho desta vila onde se
fas vereasão se juntarão ahi os
vereadores e juis ordinario pero leme e o procurador
do conselho pera se faser vereasão e sendo
juntos os ofisiaes por eles foi dito ao procurador
do conselho se ele tinha que requerer do bem comu
desta vila o fisese e pelo procurador do conselho
foi dito e requerido aos ditos ofisiaes da camara
que lhes requeira desem coreisão visto
ser pasado o mes de janero e que outrosi lhes
requeria mandasem desaterar hu aterado que estava
na rua que vai para santo antonio por que
era prejuiso dos moradores que andão por
esta vila ..."
Ou seja, os vereadores
estavam falando de um "aterrado", um
monte de terra que havia no leito da rua e que
estava prejudicando o trânsito de pedestres.
Por isso, determinaram que se removesse essa terra
(desaterrar). Mas, que rua seria esta "que
vai para Santo Antonio"? Para decifrar o
mistério, precisaremos recorrer a outros
documentos. Assim, continuando a leitura das Atas
da Câmara, encontramos uma referência
ao mesmo caso e que esclarece um pouco mais a
questão:
"Aos
desanove dias do mes de novembro de mil e seis
sentos e trinta e nove anos nesta vila são
paulo nas casas do conselho dela onde se fas vereasão
se juntarão ahi os ofisiaes da camara vereadores
e juis ordinario e produrador do conselho para
se faser vereasão se juntarão ahi
os ofisiaes sobreditos e por eles foi dito ao
procurador do conselho que se tinha que requerer
o fisesse e pelo procurador do conselho foi dito
que lhes requeria mandassem consertar e aterar
a rua que vai da mizericordia pera santo antonio
per faser nela laguoas ..."
Em outras palavras, nesta Ata do dia 19 de novembro
de 1639, os vereadores denunciavam a existência
de um buraco na mesma rua e que, por isso, formava-se
ali "laguoas" (lagoas), sendo necessário
consertar e aterrar. Nos trechos dos documentos,
o primeiro de 1638 e o segundo de 1639, encontramos
duas importantes referências: as igrejas
da Misericórdia e de Santo Antonio. Delas,
a única que sobreviveu até os dias
de hoje foi a igreja de Santo Antonio, localizada
na
Praça do Patriarca. A da Misericórdia,
por sua vez, foi demolida em 1888 mas sabemos
que localizava-se no
Largo
da Misericórdia, nas proximidades
da
Praça da Sé. Com todos
esses dados, localizamos o antigo logradouro citado
nas Atas: é a atual e muito conhecida
Rua Direita. Essa informação
inclusive pode ser confirmada ainda pelos documentos,
uma vez a mesma rua foi citada depois como "rua
direita da Misericóridia" e
também como "direita da Misericórdia
para Santo Antonio".
Além das ruas, largos e travessas localizadas
no interior da cidade, outras vias também
já recebiam denominações
tais como o "Caminho de São Vicente"
(citado em 21/04/1572), o "Caminho da Fonte"
(28/06/1572), o "Caminho do Conselho para
Virapoeira" (30/03/1575, Virapoeira é
o atual bairro do Ibirapuera) e também
o "Caminho de Pinheiros", a "Ponte
do Tamanduateí", o "Caminho do
Mar", o "Caminho de Pequeri", o
"Caminho de Ambuaçava" e o "Caminho
do Ipiranga" - todos citados em documentos
do século XVI.
Entre os séculos XVII e XVIII, já
estavam abertas e denominadas no centro histórico
as atuais
Rua Boa Vista,
Rua da Quitanda e a
Ladeira Porto Geral, dentre outras.
Essas antigas denominações foram
das poucas que permaneceram até os dias
de hoje, uma vez que algumas extremamente pitorescas
(e históricas) acabaram desaparecendo como
o Beco da Cachaça (trecho incorporado
à
Rua da Quitanda), Beco do Inferno
(atual
Rua do Comércio) Beco dos
Cornos (atual
Rua da Assembléia).
A grande maioria dessas denominações
populares não mais existem seja pela interferência
do governo municipal que substituiu grande parte
delas, seja pelo simples desaparecimento das vias
por conta das várias reformas urbanas que
a cidade sofreu. Entretanto, merece destaque na
"História das Ruas de São Paulo"
o momento preciso em que a Câmara Municipal
toma para si a incumbência de regulamentar
a denominação dos logradouros públicos
da cidade.
Desde 1560 (data da instalação da
1ª Câmara Municipal) e até a
Proclamação da República
em 1889, o governo local, responsável pela
administração da cidade, era exercido
apenas pelos vereadores que detinham os poderes
legislativo e executivo. Logo após a República,
tivemos a criação do cargo de Intendente
(um ou mais vereadores com o poder executivo)
e, em 1898, tomou posse o primeiro Prefeito, Antonio
da Silva Prado. Nesse sentido, durante todo o
século XIX, era apenas a Câmara Municipal
que legislava sobre as denominações
das ruas e, partir do século XX, também
o Prefeito.
Entretanto, o início dessa prática
pelo governo municipal somente ocorreria a partir
de1809, mais especificamente a partir do dia 09
de setembro de 1809. Naquela data, os vereadores
paulistanos receberam um ofício do Ouvidor
da Comarca, Miguel Antonio de Azevedo Veiga, nos
seguintes termos:
"Para
a mais pronta expedição do lançamento
da Décima que pretendo fazer nos prédios
urbanos desta cidade, logo que me recolha da correição
das villas do Norte, ordeno a Vossas Senhorias
que sem perda de tempo passem a mandar escrever
em cada princípio de rua na quina, ou canto
de casa, que ficar mais commodo o nome da mesma
rua, e consecutivamente em cada propriedade
de casa os números por letras de algarismos
desde um até ficarem numeradas todas as
propriedades de cassa da respectiva rua, começando
novamente pelo mesmo número um na seguinte
rua, tudo como na primeira, de maneira que
em toda a cidade não fique rua, ou beco
sem nome, assim como propriedade alguma de
casa sem número no alto da porta, que der
principal servidão á mesma casa,
pela maneira que fica insinuada. Deus Guarde a
Vossas Senhorias. Villa de Cunha em correição
a - agosto de 1809 - o Ouvidor da Comarca Miguel
Antonio de Azevedo Veiga - Senhores juiz presidente
e officiaes da Câmara da cidade de São
Paulo."
Em outras palavras, o Ouvidor determinava aos
vereadores que registrassem as denominações
das ruas em placas e numerassem as casas. O motivo
para isso era bem claro: a cobrança de
impostos! Ora, podemos entender a preocupação
do Ouvidor, uma vez que, como vimos, São
Paulo era até então uma cidade onde
os nomes das ruas não eram oficializados
e tão pouco as casas possuíam números.
Nesse caso, como controlar o pagamento das taxas
e impostos que deveriam ser pagos pelos moradores?
De outra parte, aqui fica bem explícito
um outro objetivo que seria alcançado através
da denominação das ruas e numeração
das casas: um controle mais efetivo da população
por parte do governo.
Mas, podemos perguntar: por que isso ocorreu somente
a partir de 1809? A resposta nos chega a partir
de um episódio bastante importante e conhecido
da história brasileira, ou seja, a transferência
para o Brasil de toda a corte portuguesa em 1808.
Instalado no Rio de Janeiro, D. João VI
implanta uma nova legislação e exige
o cumprimento da antiga, que até então
não era seguida à risca. E, nesse
caso específico, a cobrança de impostos
sobre as propriedades urbanas. É interessante
notar que um episódio de nossa história
- a chegada de D. João VI ao Brasil em
1808 - apesar de ter sido muito analisado pelos
nossos historiadores, guarda ainda esse importante
aspecto, pois alterou significativamente o cotidiano
ou as vida das pessoas comuns nas cidades brasileiras.
A esse respeito, citamos dois alvarás recebidos
pela Câmara Municipal de São Paulo
dias antes daquela ordem para nomear as ruas e
numerar as casas:
"Pelo Alvará
de 3 de junho do corrente anno, é Sua Alteza
Real servido mandar nesta capitania o tributo
da sisa, que vem a ser dez por cento das compras,
e vendas dos bens de raiz, e meia sisa de cinco
por cento nas que se fizerem de escravos ladinos
em todo o Estado do Brasil, tendo princípio
este imposto na data do dito Alvará em
diante.
Por Alvará
da mesma data é Sua Alteza Real igualmente
servido mandar estabelecer nesta cidade , nas
villas, e logares notáveis de serra acima
desta capitania a décima nos prédios
urbanos para o que se há de proceder nos
respectivos lançamentos e ser arrecadada
a sobredita décima nos tempos determinados."
Posteriormente, os vereadores tomam todas as medidas
preconizadas pelo Ouvidor no que diz respeito
à solicitação para a numeração
das casas e denominação das ruas.
Aos 05/11/1809, por exemplo, eles informaram que
"colocaram em praça (uma espécie
de concorrência pública) a dita
obra para ver que por menos o fazia".
Mas, apresentou-se apenas um concorrente "dando
o lance de noventa e seis mil réis",
um preço exorbitante nas palavras dos vereadores.
Por conta disso, resolveram eles que fariam o
trabalho de emplacamento das ruas por meio de
vários pequenos contratos com empreiteiros,
pois assim ficaria mais barato. Consultado a respeito,
o Ouvidor aceita a proposta da Câmara e
diz textualmente que "á vista de
todo o ponderado approvo que Vas. Sas. mandem
fazer a mesma obra quanto antes, ou por jornaes,
ou de empreitada, tudo com a maior economia, e
zelo, como espero."
A partir desse momento, o governo municipal passa
a atuar também nesse campo (denominação
dos logradouros) que, até então,
ficava mais a critério dos próprios
moradores. Para um melhor entendimento de todo
esse processo e dos passos seguintes dos vereadores,
elaboramos uma cronologia que pode ser acompanhada
a seguir:
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